Racismo cresce no TO, mas falta de denúncias esconde quantidade real de crimes: ‘Número é muito maior', diz promotora
Neste dia 20 de novembro é comemorado o Dia da Consciência Negra - data também utilizada para lembrar sobre as lutas dos movimentos negros, combate ao racismo e números da desigualdade. Conheça projetos e órgãos que atuam no acolhimento de vítimas no Tocantins.
"Me chamou de macaco, negro, maldito", disse. No primeiro momento Django não quis registrar o caso na delegacia. No dia seguinte o agressor apareceu e incendiou o veículo. O Corpo de Bombeiros foi acionado para conter as chamas e o vendedor registrou um boletim de ocorrência. Além do veículo, as mercadorias foram destruídas.
O trabalhador, que vende produtos com ajuda da mãe, ainda ouve comentários racistas diariamente mesmo depois de meses e de toda a repercussão do caso.
"Eu recebo e percebo, sistematicamente, todos os dias, algum ato de racismo. Eu e minha mãe. E vem das pessoas que nós atendemos. A desconfiança, a forma como se referem ao meu negócio, a mim. E as pessoas que praticam não entendem que elas são as agressoras. O racismo está tão impregnado que a pessoa não se vê, não se percebe como racista", disse.
"Eu fui beneficiada com projetos quando era criança e senti no coração a vontade de retribuir. Quando a pandemia chegou, veio o isolamento social. A gente via os ricos isolados tendo do bom e do melhor, enquanto na periferia o povo sofria e era um desespero. Naquela época não tinha auxílio, as pessoas estavam sendo despejadas. A maioria, mulher negra e mães solteiras. Foi quando pedi ajuda com doações de alimentos, roupas e calçados nas redes sociais. Quando começou a chegar os produtos dividi a minha casa e fui morar nos fundos para ter espaço de atender esse grupo", lembra, Charleide.
Outra preocupação era com a contaminação da população mais pobre com o vírus da Covid-19. Ela lembra que as mulheres não tinham dinheiro para comprar máscara de proteção e priorizavam a compra de alimentos para os filhos. "Recebi doação de tecidos. Eu tinha uma máquina de costura e eu, com a ajuda do meu namorado, confeccionei mais de 500 máscaras", contou. Atualmente o projeto conta com uma biblioteca e bazar que funcionam aos sábados. Neste fim de ano Charleide pretende se vestir de Mamãe Noel e distribuir brinquedos. "Vai ser o Natal Feliz na Periferia. ou entregar brinquedos especificamente nas ocupações, nos barracos de lona, para atender as crianças mais vulneráveis", disse a mulher.
Ele explica que o movimento social também organiza ações que expressam a cultura negra, como batalhas de hip-hop, rodas de capoeira e outras interações como o 'rolê de gente preta' e 'baile do escurinho'.
"Os encontros são para que haja um maior envolvimento entre negros, um espaço para relação de afeto e de irmandade. A gente também se movimenta dentro das escolas, das universidades, das periferias, praças, fazemos caminhadas, denúncias públicas. Nos espaços a gente leva o debate racial para conscientização dos não negros sobre o racismo", disse Diego Panhussatti.
Desigualdade salarial Além de sofrer mais violência e ser obrigada a conviver e combater crimes de racismo, a população negra também é a mais afetada por pobreza e desemprego e ainda enfrenta discrepâncias salariais. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), trabalhadores pretos ganham 40,2% menos do que brancos por hora trabalhada. Isso implica que pretos e pardos precisem trabalhar mais horas para conseguir ganhar, no fim do mês, o mesmo valor que brancos.
O Tocantins segue a mesma tendência. O IBGE levantou que os tocantinenses pretos ou pardos ganham, em média, R$ 1,1 mil a menos que trabalhadores brancos em postos de trabalhos formais e informais. A média de rendimentos no estado chegou a R$ 2.059 em 2021. Aplicando o recorte por cor ou raça, a desigualdade se torna perceptível. O rendimento médio é o seguinte:
- Brancos - R$ 2.957
- Pretos - R$ 1.764
- Pardos - R$ 1.853
Dados do estudo Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil do IBGE mostram que, considerando a linha de pobreza monetária, a proporção de pessoas pobres no país era de 18,6% entre os brancos e praticamente o dobro entre os pretos (34,5%) e entre os pardos (38,4%).
Estatística A SSP informou, por meio do Núcleo de Coleta e Análise Estatística da Secretaria de Segurança Pública do Tocantins, que neste ano foram registrados 25 casos de racismo - incluindo os crimes praticados pela internet - até este sábado (19). O número já é maior que o registrado em todo o ano passado. Os dados apontam que há um crescimento dos crimes desde 2020, quando os números começaram a ser divulgados na plataforma. Veja os gráfico:
Na maioria das vezes o Ministério Público recebe as notícias da prática de racismo pela própria Polícia Civil. No ano passado, cinco casos chegaram ao órgão e neste ano foram 11 episódios. Apesar do número mais que dobrar, a promotora afirma que grande parte dos casos não são denunciados e por isso não é possível saber o número real de crimes desta natureza.
"Esse número ainda não expressa a realidade. Nós sabemos que o número de injúrias raciais e da prática de racismo é maior, mas não chega para nós. Inclusive de racismo religioso. Temos isso com muita consistência no estado e precisamos combater. A maioria das pessoas ainda temem muito a atuação do estado em prol do seu próprio benefício", disse Isabelle Figueiredo.
A promotora pediu que as pessoas que sofrerem essas agressões levem o caso adiante.
"É importante que as pessoas tragam para nós as notícias. Não se preocupem. 'ah eu não sei se vou conseguir provar'. Essa avaliação sobre provas não cabe ao cidadão comum. Traga isso ao Ministério Público, traga isso para a Polícia Civil e deixe que os técnicos avaliem como essa prova vai ser produzida. Só noticie. É o mais importante", explicou.
O órgão também faz ações para debater o tema. Na última sexta-feira (18) o Centro de Apoio Operacional do Consumidor, da Cidadania, dos Direitos Humanos e da Mulher (Caoccid) promoveu uma roda de conversa com o tema: “A consciência negra por um olhar transversal: uma reflexão sobre o papel do Sistema de Justiça e suas instituições na busca pela igualdade”.
Como identificar os crimes
É comum que práticas racistas se camuflem em situações cotidianas. Estando evidente ou não, a vítima tem o direito de denunciar qualquer forma de constrangimento e humilhação. Uma cartilha do Ministério da Justiça e Cidadania cita as seguintes ações como algumas das principais cometidas pelos agressores:
- Apelidar pessoas de acordo com características físicas e a partir de elementos de cor e etnia
- Inferiorizar características estéticas da etnia
- Considerar a vítima inferior intelectualmente por causa da etnia
- Ofender verbal ou fisicamente a vítima
- Desprezar costumes, hábitos e tradições da etnia
- Duvidar da honestidade e competência da vítima sem provas
- Recusar-se a prestar serviços a pessoas de diferentes etnias
A legislação brasileira define punições específicas para cada situação. Cabe ao delegado e ao promotor avaliar cada caso e indicar se a lei se aplica naquela situação. Saiba como denunciar.
Denúncia presencial Se o crime estiver acontecendo naquele momento, a vítima pode chamar a Polícia Militar por meio do Disque 190. Além de fazer parar a agressão, a PM pode prender o agressor e levá-lo à delegacia
Se o crime já aconteceu:
- Procure a autoridade policial mais próxima e registre a ocorrência
- Conte a situação com o máximo de detalhes - se possível, com provas
- Forneça nomes e contatos das testemunhas
- Solicite ao policial para incluir na queixa que deseja que o agressor seja processado
A cartilha do Ministério da Justiça e cartilhas de Ministérios Públicos estaduais destacam que, se o agente policial registrar a denúncia como um Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO), a vítima pode insistir que o crime não é de menor potencial ofensivo e que deve ser investigado por meio de inquérito. É possível fazer a queixa em delegacias comuns. O Tocantins não possui Delegacia especializada para crimes relacionados a crimes raciais e de intolerância. Quando não há apenas uma vítima, ou seja, quando o crime atingir uma coletividade de pessoas negras, como uma comunidade quilombola, por exemplo, é possível procurar o Ministério Público e fazer uma denúncia.
Denúncia pelo telefone O governo federal tem o Disque Direitos Humanos - Disque 100, em que é possível apresentar denúncias de violações de direitos humanos, incluindo "Discriminação ética ou racial" e "Violência contra ciganos, quilombolas, indígenas e outras comunidades tradicionais". Segundo a Secretaria de Cidadania e Justiça (Seciju), o Tocantins tem 25 comunidades quilombolas reconhecidas pela Fundação Cultural Palmares, do Governo Federal. Uma delas é a comunidade quilombola Ilha de São Vicente, em Araguatins, território que conta com mais de 50 famílias. Entre elas, a de Fátima Barros, pedagoga e liderança quilombola que morreu aos 48 anos por Covid-19 em 2021. Ela era conhecida nacionamente pela atuação em defesa de comunidades quilombolas.
Sueli Freitas Barros, estudante de biologia e sobrinha de Fátima, diz que por muitos anos a ativista lutou pelos direitos da comunidade, principalmente em relação ao território, combate ao racismo e acesso pleno à educação.
"Ela viajava, lutava por todos nós, por direitos que a gente não tinha acesso antes. Hoje olha quantas pessoas formadas ou estudando cursos superiores nós temos. Infelizmente durante a pandemia da Covid-19 a comunidade perdeu Fátima Barros foi uma das principais lideranças do Tocantins e referência em todo o Brasil", disse.
Sueli diz que Fátima é lembrada por toda a população. Dois anos após sua morte, a liderança continua sendo homenageada.
"Ela ancestralizou, mas ainda estamos sofrendo com a perda dela e também do meu pai, Raimundo Batista Barros. Os dois eram de grupos prioritários, mas a vacina não chegou a tempo. Estamos cada vez mais formando novas lideranças porque a luta não pode parar um segundo", disse Sueli.