Sentença anulada: falhas do juiz levam TJTO a refazer júri de crime em Praia Norte
O Tribunal de Justiça do Tocantins (TJTO) anulou, por unanimidade, o julgamento do Tribunal do Júri realizado em Augustinópolis, no Bico do Papagaio, após reconhecer nulidades graves que comprometeram a legitimidade do veredito. A decisão foi tomada pelo Pleno na última quinta-feira (21), em sede de revisão criminal – instrumento excepcional utilizado quando não há mais possibilidade de recurso.
O caso envolve Francisco Cláudio Araújo da Silva, acusado de assassinar Rone Sousa de Paulo em 14 de dezembro de 2019, na zona rural de Praia Norte. A vítima mantinha um relacionamento com a ex-companheira do réu, circunstância que deu ao crime grande repercussão regional.
Júri anuladoO julgamento anulado ocorreu em 17 de dezembro de 2024 e resultou na condenação de Francisco Cláudio. O conselho de sentença afastou o dolo, mas o juiz presidente do júri reclassificou unilateralmente a conduta para lesão corporal seguida de morte, decretando a prisão do acusado.
Para o TJTO, a condução do julgamento violou o princípio da soberania dos veredictos, previsto na Constituição. O relator destacou, entre os erros mais graves, a formulação incorreta do 3º quesito, que deveria questionar se os jurados absolviam o réu, mas foi redigido para apurar culpa. Também foi apontada como irregular a reclassificação da decisão feita pelo magistrado, além da decretação da prisão preventiva sem fundamentação adequada.
Defesa comemora correçãoA defesa de Francisco Cláudio, formada pelos advogados Marcos Vinícius de Moura Santos, Antonio Araújo de Andrade e Glebson Lessa, assumiu o caso apenas na fase de revisão criminal. Eles não atuaram no júri em Augustinópolis, mas apontaram os vícios processuais.
“As nulidades atingiram diretamente a soberania dos veredictos, comprometendo a regularidade do julgamento e tornando indispensável a anulação do resultado”, afirmou Marcos Vinícius.
Antonio Araújo acrescentou: “A liberdade, em primeiro lugar. A condenação lhe impôs a prisão desde dezembro de 2024. Essa decisão corrige uma injustiça processual, devolvendo-lhe o direito a um julgamento justo e constitucional.”
Já Glebson Lessa ressaltou o impacto institucional da decisão: “O reconhecimento das nulidades é uma vitória da cidadania. Mostra que as instituições funcionam e que o cidadão pode confiar na Justiça e, sobretudo, na advocacia criminal.”
Novo júriCom a anulação, o processo retorna para novo julgamento pelo Tribunal do Júri, que deverá ocorrer com respeito estrito às regras legais e constitucionais. O Ministério Público e a defesa terão oportunidade de apresentar novamente suas teses, e caberá ao conselho de sentença decidir sem interferências externas.
Para a defesa, mais do que uma vitória individual, a decisão reafirma a importância da soberania dos veredictos e da preservação do direito de defesa como pilares da democracia.