A reportagem da TV Anhanguera trouxe à tona aquilo que muita gente no Tocantins já pressentia e poucos tinham coragem de dizer: o poder andava voando alto demais.
O governador afastado Wanderlei Barbosa (Republicanos) usou um jatinho bancado pelo dinheiro público para viajar com a família, amigos e aliados em roteiros de lazer, partidas de futebol e festas familiares. Tudo pago pelos cofres do Estado.
Foram viagens de luxo, custando centenas de milhares de reais, em pleno momento em que o Tocantins enfrenta filas em hospitais e estradas que mais parecem feridas abertas no asfalto.
Em janeiro, a aeronave do governo transportou o casal Wanderlei e Karynne Sotero de volta de férias nos Lençóis Maranhenses. Custo: R$ 141 mil. Dias depois, outro voo, R$ 189 mil levou o filho Rérison Castro, que sequer tem cargo público.
E não parou por aí. Em fevereiro, Wanderlei e o presidente da Assembleia, Amélio Cayres, usaram o jatinho para assistir a uma partida de futebol em Minas Gerais. Em março, outra viagem, R$ 89 mil para acompanhar a Seleção Brasileira em Brasília, com direito a filhos, neto e assessores.
Cada pouso e decolagem parecia uma celebração privada, bancada com dinheiro de todos.
O que se vê nesse episódio é mais do que desvio de conduta: é a velha doença brasileira da confusão entre o público e o privado. O Tocantins foi tratado como extensão da casa dos Barbosa.
O jatinho, alugado por cerca de R$ 20 milhões anuais, virou transporte de luxo para fins particulares, viagens de pesca, aniversários e encontros familiares.
Houve até voo para Minaçu (GO), onde o próprio governador publicou nas redes sociais:
“Estou em Minaçu, prestigiando a festa da nossa família, a família Barbosa.”
A conta dessa “festa” R$ 50 mil caiu sobre o contribuinte tocantinense.
A emissora procurou Wanderlei, Karynne, Rérison e Marilon Barbosa. Nenhum respondeu.
O Sebrae Tocantins, onde Rérison ocupa cargo de superintendente, tratou de se desvincular, afirmando não ter qualquer relação com as viagens.
Já o deputado estadual Léo Barbosa alegou que acompanhou o pai em “agenda institucional” em Brasília e que eventos posteriores não representariam gasto adicional.
Mas a realidade fala mais alto que as notas oficiais. As imagens, as datas e os valores contam outra história e uma história cara, muito cara.
Com o afastamento de Wanderlei pelo STJ, na esteira da Operação Fames-19, que apura desvios na compra de cestas básicas durante a pandemia, o governador em exercício, Laurez Moreira (PSD), devolveu o jatinho e suspendeu o contrato.
Uma atitude mínima, mas simbólica: encerrar o capítulo do luxo pago com o suor do povo.
Como disse o especialista Jorge Leal, “é difícil justificar o uso de uma aeronave de extremo luxo quando há voos comerciais disponíveis”.
Difícil mesmo é justificar a distância moral entre quem governa e quem é governado.
O caso do jatinho é só o reflexo de algo mais profundo: um Tocantins exausto de assistir às elites políticas tratem o governo como herança pessoal.
Não se trata de um voo isolado, mas de um padrão. A política local há muito perdeu o senso de serviço e se alimenta da ideia de privilégio.
Enquanto alguns voam de jatinho, o cidadão comum enfrenta a poeira das estradas, a falta de médicos, o salário parcelado e o transporte precário.
O contraste é cruel.
Wanderlei Barbosa caiu não por causa de uma única viagem, mas pelo acúmulo de gestos, cada um deles revelando o mesmo desprezo pela sobriedade que se espera de quem governa.
O jatinho era símbolo de status. Agora é símbolo de vergonha pública.
E, no fim, o Tocantins continua o mesmo: um povo simples, pagando caro pelo luxo de poucos que esqueceram o chão enquanto aprendiam a amar o céu.