A Polícia Federal apontou que o governador afastado do Tocantins, Wanderlei Barbosa (Republicanos), teria sido avisado com antecedência sobre o cumprimento dos mandados da Operação Fames-19, em setembro deste ano, e que, com ajuda de aliados, retirou malas, caixas e documentos de suas residências antes da chegada dos agentes federais.
As informações constam em decisão do ministro Mauro Campbell Marques, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), que autorizou a nova etapa da investigação, a Operação Nêmesis, deflagrada nesta quarta-feira (12) em Palmas e Santa Tereza do Tocantins.
Segundo o relatório, Wanderlei Barbosa, a primeira-dama Karynne Sotero Campos e o filho Yhgor Leonardo teriam participado diretamente da remoção de provas, utilizando carros oficiais e servidores públicos.
Câmeras de segurança mostram malas e mochilas sendo levadas da casa do casal com apoio de militares da Casa Militar e assessores da Secretaria Extraordinária de Participações Sociais, pasta comandada por Karynne até seu afastamento.
Na noite anterior às buscas, o casal recebeu o advogado Thomas Jefferson Gonçalves Teixeira, ex-secretário de Parcerias e sócio do filho do governador, Rérisson Castro.
Após a visita, os dois deixaram a residência às pressas e seguiram para uma fazenda em Aparecida do Rio Negro, onde foram encontrados pela PF horas depois.
Durante o cumprimento dos mandados da primeira fase da operação, a PF apreendeu R$ 52 mil em espécie guardados em cofres na casa do casal escondidos em um armário planejado em Palmas, quantia que teria sido esquecida durante a fuga.
As investigações revelam uma rede de apoio que teria atuado para remover e ocultar bens, incluindo militares da Casa Militar, servidores comissionados e aliados políticos.
Entre os citados estão o coronel Wander Araújo Vieira, o tenente Rogério França Borges e o servidor Lucas Ferreira Maciel.
A PF também identificou o envolvimento do empresário Mauro Henrique da Silva Xavier, apontado como proprietário formal de imóveis e veículos usados pela família Barbosa, incluindo uma chácara em Campo Alegre (Paranã) decorada com pertences do casal, indício, segundo a investigação, de lavagem de dinheiro e dissimulação de patrimônio.
A Operação Nêmesis é um desdobramento da Fames-19, que apura desvios de recursos públicos durante a pandemia e o uso irregular de emendas parlamentares destinadas à compra de cestas básicas.
Wanderlei Barbosa, a primeira-dama e seus principais aliados são investigados por peculato, corrupção passiva, fraude em licitação, lavagem de dinheiro, organização criminosa e obstrução de investigação.
As ações desta quarta-feira têm como objetivo interromper a destruição de provas, rastrear ativos desviados e reunir novos elementos sobre a participação de cada investigado. O inquérito tramita sob sigilo judicial no STJ.
A defesa de Wanderlei Barbosa confirmou que, durante as buscas, celulares foram apreendidos, e que, por enquanto, não haverá manifestação oficial sobre as acusações.
O governador afastado e Karynne negam participação nos crimes e afirmam que os valores encontrados são fruto de economias pessoais.
Com a deflagração da Operação Nêmesis, o Tocantins mergulha em uma nova fase de instabilidade política. A decisão do ministro Mauro Campbell cita “fortes indícios de contrainteligência e embaraço às investigações”, reforçando que a estrutura do Estado teria sido utilizada para frustrar o trabalho da Polícia Federal.
A crise aprofunda o desgaste do grupo político de Wanderlei Barbosa e recoloca o nome do governador afastado no centro de um dos maiores escândalos de corrupção da história do Tocantins.