A trilha sonora que embalou a gestão do governador afastado Wanderlei Barbosa (Republicanos) custou caro ao bolso do contribuinte. Documentos oficiais aos quais a TV Anhanguera teve acesso mostram que, em dois anos e dez meses, o Governo do Tocantins destinou mais de R$ 430 milhões para festas, shows, eventos religiosos, esportivos e confraternizações bancadas com dinheiro público. Enquanto isso, áreas essenciais como moradia e saúde não receberam investimentos compatíveis e nenhuma casa popular foi entregue com recursos próprios do Estado no período.
O início da série de gastos é emblemático. Em fevereiro, a primeira “Marcha dos Vereadores do Tocantins”, realizada em Palmas, contou com churrasco, futebol e shows bancados pelo governo. Antes mesmo do evento, artistas foram recebidos pelo então governador Wanderlei Barbosa para divulgação nas redes sociais.
Segundo o Diário Oficial, a Secretaria de Turismo pagou R$ 320 mil por dois shows na confraternização. Dias depois, o governo promoveu carnaval no povoado de Campo Alegre, em Paranã, por R$ 250 mil, sendo R$ 150 mil apenas para o cantor Evonei Fernandes.
De acordo com dados do Sistema Integrado de Administração Financeira (Siaf), os gastos com eventos cresceram ano após ano:
2023: R$ 47,5 milhões (transferências diretas às prefeituras – PIX)
2024: R$ 73,9 milhões
2025 (até setembro): R$ 87 milhões
Além das transferências, houve gastos diretos feitos pelo próprio governo com eventos:
2023: R$ 22 milhões
2024: R$ 62,8 milhões
2025 (até setembro): R$ 38 milhões
As emendas apresentadas por deputados estaduais também alimentaram a farra de recursos:
2023: R$ 14,9 milhões
2024: R$ 37,4 milhões
2025 (até setembro): R$ 28,7 milhões
A maior parte dos recursos passou por institutos privados contratados para organizar eventos. Apenas quatro entidades receberam 118 pagamentos em 2025.
O Instituto Saber e Arte (ICSA), de Luzimangues, por exemplo, recebeu mais de R$ 5 milhões, incluindo shows em Juarina contratados com emenda do deputado Ivorir de Lira (PCdoB). O evento teve apresentações de Rony Sertão e Robinho Estilizado por cerca de R$ 140 mil.
O Instituto Gestão Tocantins, responsável por mais de R$ 2,4 milhões repassados este ano, tem como representante Ana Paula da Silva e Moura, diretora de Administração, Finanças e Planejamento da Prefeitura de Palmas. A legislação proíbe servidores de exercer gerência ou administração em entidades privadas que recebem recursos públicos, por configurar conflito de interesses.
Para especialistas ouvidos pela reportagem, o volume de recursos destinados a festas cria uma distorção grave na gestão pública:
Enfraquece o planejamento técnico do orçamento;
Reduz a eficiência do Estado;
Compromete investimentos em áreas essenciais.
A Procuradoria-Geral do Estado chegou a emitir pareceres alertando sobre o excesso de gastos em municípios com demandas mais urgentes.
Nos 2 anos e 10 meses analisados, o governo não entregou nenhuma casa popular com recursos próprios. Segundo tabelas da Caixa Econômica Federal, o valor gasto daria para construir 5.700 moradias.
Também seria possível erguer vários hospitais e clínicas, considerando que obras desse tipo custam entre R$ 40 milhões e R$ 100 milhões.
Artistas e institutos envolvidos afirmam que todos os contratos seguiram a legislação e padrões de mercado.
A deputada Cláudia Lelis (PV) e o deputado Léo Barbosa (Republicanos) defenderam que suas emendas atendem interesses culturais e econômicos das comunidades.
A assessoria do governador afastado Wanderlei Barbosa disse que não irá se manifestar.
A Prefeitura de Palmas reafirmou que servidores municipais são proibidos de administrar entidades privadas que recebem repasses públicos.
A Assembleia Legislativa não respondeu. Ana Paula da Silva e Moura também não se manifestou.
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