Tocantins soma 136 desaparecimentos em menos de três meses e expõe rotina de dor, espera e silêncio
Casos recentes, como o de Ágatha Sophia, de 4 anos, revelam a face mais cruel de uma estatística que se espalha por várias regiões do Estado
O Tocantins registrou 136 desaparecimentos entre 1º de janeiro e 24 de março de 2026. Em menos de três meses, o número escancara uma realidade dura: por trás de cada boletim, há uma casa em suspenso, uma família consumida pela incerteza e uma busca que, muitas vezes, atravessa os dias sem resposta. Entre os casos mais recentes está o da menina Ágatha Sophia, de 4 anos, desaparecida nas águas do Rio Tocantins, em Tocantinópolis.
Os dados do Núcleo de Coleta e Análise Estatística da Secretaria da Segurança Pública mostram que Palmas, Araguaína e Gurupi lideram os registros. O perfil predominante entre os desaparecidos é de homens pardos, com idades entre 18 e 59 anos. Outro dado chama atenção: 72,06% dos desaparecimentos ocorreram no período da manhã. Só no dia 14 de março, três pessoas sumiram no estado.
No caso de Ágatha Sophia, o drama ganhou contornos ainda mais dolorosos pela idade da vítima e pelas circunstâncias do desaparecimento. Segundo o relato, a menina estava com a mãe quando se afastou e saiu do campo de visão, no Rio Tocantins. Testemunhas disseram ter visto uma pessoa pedindo socorro na água logo depois. Familiares e amigos ainda tentaram agir, mas foram impedidos pela força da correnteza e pelo nível elevado do rio. A Polícia Civil instaurou inquérito, e a investigação está sob responsabilidade da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher e Vulneráveis de Tocantinópolis. A avó da criança resumiu o que números frios jamais conseguem traduzir: a dor de voltar para casa e encontrar apenas a ausência.
No mesmo 14 de março, outras duas ocorrências engrossaram a estatística. Em Cariri do Tocantins, o mecânico agrícola Adenir Rodrigues da Conceição desapareceu em uma fazenda onde prestava serviço, depois de descer para um córrego próximo à sede da propriedade. Em Novo Acordo, Ismael Gama, de 36 anos, saiu para beber com amigos e não foi mais visto. Nos dois casos, as investigações seguem em andamento.
Entre os desaparecimentos que atravessam os anos e seguem sem desfecho, o caso de Laura Vitória continua como uma ferida aberta no Tocantins. A menina sumiu em janeiro de 2016, em Palmas, após sair de casa para ir a um supermercado. Imagens mostram sua entrada e saída do local, mas, depois disso, ela nunca mais foi vista. O caso foi denunciado à Organização das Nações Unidas pelo Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente, que apontou possíveis falhas na investigação. A Secretaria da Segurança Pública informa que o procedimento tramita sob segredo de Justiça.
Em nota, a SSP afirma que mais de 90% dos casos registrados nas maiores cidades do estado em 2026 foram solucionados em curto espaço de tempo. Segundo a pasta, muitos registros envolvem desaparecimentos por saída voluntária, ocorrências em ambientes aquáticos ou situações relacionadas a problemas de orientação e saúde. O órgão também sustenta que casos provocados por terceiros são raros no Tocantins. Ainda assim, o volume de registros em tão pouco tempo revela um problema que não pode ser tratado apenas como dado estatístico. Quando alguém desaparece, não some só uma pessoa. Fica um rastro de medo, impotência e espera dentro de quem fica.