CRM-TO alerta para falta de estrutura e se posiciona contra curso de Medicina da UNIRG em Colinas

Por Thiago de Castro - Correio do Tocantins
08/01/2026 13h08 - Atualizado há 1 mês
8 Min

O Conselho Regional de Medicina do Tocantins (CRM-TO) divulgou, no dia 7 de janeiro de 2026, um posicionamento oficial contrário à abertura do curso de Medicina da Universidade de Gurupi (UNIRG) no município de Colinas do Tocantins. A manifestação foi publicada após visita técnica às estruturas indicadas para funcionamento do campus e da rede hospitalar local.

De acordo com o CRM-TO, o Conselho não aprova a abertura do curso e alerta a população tocantinense para os riscos de uma expansão considerada inadequada do ensino médico. Segundo o órgão, a visita técnica constatou a ausência de estrutura mínima necessária para o funcionamento de uma escola de Medicina no município.

Entre os pontos elencados, o CRM-TO informa que o prédio destinado à instalação do curso encontra-se inacabado, o que, segundo o Conselho, inviabiliza a emissão de parecer técnico favorável. No que se refere à rede assistencial, o Hospital Municipal de Colinas possui atualmente 70 leitos, número considerado insuficiente diante dos parâmetros estabelecidos pelo Ministério da Educação (MEC) para cursos com previsão de 120 alunos por ano.

O Conselho aponta ainda que o ambulatório e o pronto-socorro do município não dispõem de equipes completas de especialidades médicas, o que comprometeria tanto o ensino quanto a assistência à população. Também foi destacado que não há espaço físico identificado para ampliação rápida da estrutura hospitalar.

O documento menciona, ainda, que a possibilidade de realização de estágios e internatos em municípios vizinhos, como Araguaína, enfrenta limitações, em razão da sobrecarga dos serviços de saúde locais e dos riscos associados ao deslocamento frequente de estudantes pela BR-153.

No posicionamento, o CRM-TO contextualiza a situação no cenário nacional. Segundo dados citados pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), o número de escolas médicas no Brasil passou de 143 em 2004 para 494 em 2024. Atualmente, cerca de 44 mil médicos se formam por ano no país, embora o número de vagas autorizadas já ultrapasse 50 mil.

O texto também destaca que, paralelamente à expansão do ensino médico, houve redução da infraestrutura de saúde. Entre 2010 e 2023, o Brasil perdeu mais de 25 mil leitos do Sistema Único de Saúde (SUS), o que, de acordo com o CRM-TO, impacta diretamente a capacidade de ensino prático.

No âmbito estadual, o Tocantins figura entre os estados que mais formam médicos per capita, com aproximadamente 568 novos profissionais por ano distribuídos em nove escolas médicas, sendo três públicas e seis privadas. Considerando também os formados fora do estado, o registro anual chega a cerca de 900 novos médicos. O Conselho ressalta que nenhuma das escolas médicas do Tocantins preenche completamente os pré-requisitos exigidos pelo MEC.

O documento cita ainda o desempenho da UNIRG no ciclo avaliativo de 2023, quando o curso de Medicina obteve nota 1, faixa considerada insatisfatória no Conceito Preliminar de Curso (CPC/MEC). Conforme as normas do MEC, a nota mínima exigida para funcionamento é 3,0, sendo recomendada nota 4,0 para processos de expansão.

O CRM-TO também menciona a existência de denúncias feitas por acadêmicos da instituição, incluindo um abaixo-assinado com 350 assinaturas, relatando falta de materiais didáticos e desvio de equipamentos durante períodos de vistoria.

Ao final do posicionamento, o Conselho afirma que o Brasil não enfrenta déficit numérico de médicos, mas dificuldades relacionadas à distribuição, fixação de profissionais no interior e à qualificação da formação. O CRM-TO conclui que a abertura de novas escolas sem estrutura adequada pode gerar prejuízos aos estudantes e à assistência à população.

Confira a nota na íntegra

NOTA DO CRM-TO – CASO UNIRG COLINAS

O Conselho Regional de Medicina do Tocantins (CRM-TO) não aprova a abertura da Faculdade de Medicina da UNIRG no município de Colinas. O Conselho alerta ainda os cidadãos de que esta abertura desenfreada e irresponsável de novas escolas médicas põe em risco a população, lesa os possíveis futuros alunos e não resolve os problemas de saúde do Estado.

Em recente visita às possíveis instalações do campus e hospital em Colinas, previstos para funcionamento desta terceira unidade da UNIRG, o CRM-TO constatou a completa falta de estrutura para funcionamento de uma escola de Medicina. Como agravante, e apesar do posicionamento contrário do Conselho junto ao Conselho Estadual de Saúde, este órgão emitiu parecer favorável ao processo.

Nos últimos 20 anos, o Brasil viveu uma expansão descontrolada do ensino médico. Dados do Conselho Federal de Medicina revelam que o país saltou de 143 escolas médicas em 2004 para 494 em 2024. Atualmente, formam-se cerca de 44 mil novos médicos por ano, embora o número de vagas autorizadas já ultrapasse 50 mil.

O Brasil ocupa hoje o segundo lugar no mundo em número de escolas de Medicina, ficando atrás apenas da Índia. A população indiana é de aproximadamente 1,4 bilhão de habitantes, quase sete vezes maior que a do Brasil. A Índia possui cerca de 650 escolas médicas, enquanto o Brasil possui 494. Enquanto o Brasil forma aproximadamente 44 mil médicos por ano, a Índia forma cerca de 80 mil, número proporcionalmente menor em relação à sua população.

Paralelamente à expansão do ensino médico, a infraestrutura de saúde regrediu. Entre 2010 e 2023, o Brasil perdeu mais de 25 mil leitos do Sistema Único de Saúde (SUS), passando de 335 mil para 309 mil leitos, o que afeta diretamente a capacidade de ensino prático. No que se refere à residência médica, as vagas não acompanham o número de formandos e atualmente atendem pouco mais de 55% dos egressos, inviabilizando a qualificação de milhares de jovens médicos. A bolsa de residência médica sofreu acentuada desvalorização: em 2016 correspondia a cerca de 3,7 salários mínimos e hoje equivale a 2,7, não permitindo sequer o pagamento do FIES, cuja inadimplência atingiu 62% dos contratos em 2025.

O argumento da falta de médicos para justificar a abertura de novas escolas é considerado infundado. O Brasil já ultrapassa 600 mil médicos registrados e caminha para atingir 1 milhão de profissionais até 2035. O problema não é o número de médicos, mas a ausência de planos de carreira capazes de fixar profissionais no interior do país.

No contexto estadual, o Tocantins figura entre os estados que mais formam médicos per capita no Brasil. São aproximadamente 568 novos médicos por ano distribuídos em nove escolas médicas, sendo três públicas e seis privadas. Anualmente, o estado registra cerca de 900 novos médicos, considerando também os formados fora do país. O CRM-TO ressalta que nenhuma das escolas médicas do Tocantins atende plenamente aos pré-requisitos exigidos pelo Ministério da Educação.

No caso específico da UNIRG, no ciclo avaliativo de 2023, o curso de Medicina obteve nota 1 (Faixa 1 – Insatisfatória) no Conceito Preliminar de Curso (CPC/MEC), figurando entre os piores do país. O Ministério da Educação exige nota mínima 3,0 para funcionamento regular e recomenda nota 4,0 para processos de expansão. A nota avalia não apenas a qualidade do ensino, mas também a viabilidade de abertura de novas vagas.

Há registros de denúncias recorrentes de acadêmicos da UNIRG, sendo a mais recente acompanhada de cerca de 350 assinaturas, apontando falta de materiais didáticos e desvio de equipamentos para outras unidades durante períodos de vistoria.

No contexto local, a análise técnica do CRM-TO após visita à estrutura da Faculdade UNIRG em Colinas constatou que o prédio destinado ao curso encontra-se inacabado, tornando impossível a emissão de qualquer parecer técnico favorável. O Hospital Municipal de Colinas possui apenas 70 leitos, número muito inferior ao exigido pelo MEC. Para um curso com 120 alunos por ano, o Ministério da Educação estabelece uma relação mínima de leitos por aluno no internato, parâmetro que a estrutura atual não suporta. Também foi verificado que não há espaço físico para rápida ampliação da unidade hospitalar.

O ambulatório e o pronto-socorro do município não dispõem de equipes completas de especialidades médicas, o que dificulta a formação de um corpo docente adequado para uma escola de Medicina. A possibilidade de realização de estágios e internatos em cidades vizinhas, como Araguaína, encontra obstáculos diante da superlotação dos serviços de saúde e do risco imposto pelo deslocamento frequente pela BR-153, rodovia de tráfego intenso e com histórico de acidentes graves.

Ao final, o CRM-TO afirma que o Brasil não necessita da abertura de novas escolas médicas, mas de políticas de capacitação e fidelização de profissionais. O Conselho reforça sua preocupação com a forma superficial como a expansão de escolas médicas vem sendo tratada, destacando que essa prática pode causar prejuízos aos estudantes e colocar em risco a saúde da população.

Palmas, 7 de janeiro de 2026.
Conselho Regional de Medicina do Estado do Tocantins – CRM-TO


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