A situação dos animais em situação de rua em Colinas do Tocantins saiu do campo das reclamações isoladas e ganhou dimensão pública e institucional na noite do dia 17 de março, durante audiência pública realizada na Câmara Municipal. Proposto pela vereadora Naiara Miranda (MDB), o encontro reuniu representantes do Legislativo, do Executivo, da saúde pública, protetores independentes, associação da causa animal e parlamentares de outros municípios.
Mais do que um debate formal, a audiência expôs uma realidade dura: o abandono crescente de cães e gatos, a sobrecarga de quem atua por conta própria, a falta de estrutura do município e a cobrança cada vez mais evidente para que Colinas trate a causa animal como política pública, e não como problema secundário.
Ao defender a realização da audiência, Naiara Miranda sustentou que a pauta já não pode mais ser tratada apenas como questão de sensibilidade ou boa vontade. O problema, segundo ela, atinge a saúde pública, o meio ambiente, a segurança e a própria rotina da cidade.
Na tribuna, a vereadora afirmou que a causa animal é uma das bandeiras do seu mandato e relatou que o gabinete vem recebendo, desde o ano passado, sucessivas demandas ligadas a abandono, resgates e maus-tratos. Para ilustrar a gravidade do cenário, citou o caso de “Toquinho”, animal encontrado em estado crítico, com grave infecção, acolhido com apoio da associação local e depois adotado.
A fala deu o tom da audiência: em Colinas, o problema não é abstrato. Ele tem custo, desgaste, sofrimento e nome.
O principal anúncio da noite foi a apresentação de uma emenda parlamentar de R$ 200 mil, de autoria da deputada estadual Vanda Monteiro (UB), destinada a ações voltadas ao controle populacional de cães e gatos.
Segundo o espelho da proposta, o recurso está vinculado à ação orçamentária “Defesa e Proteção dos Animais” e prevê consultas veterinárias, castrações e cirurgias eletivas, por meio do Instituto Pizada. A execução está prevista para o período de 4 de maio a 31 de dezembro de 2026. Além de Colinas, a iniciativa também contempla Lagoa do Tocantins, Monte Santo do Tocantins e Novo Acordo.
Durante a audiência, Naiara classificou o recurso como um “pontapé inicial”, deixando claro que a cidade precisa avançar para além de uma ação pontual. A avaliação predominante no plenário foi justamente essa: a emenda ajuda, mas não resolve sozinha um problema que já se arrasta há anos.
Se houve um momento em que a audiência deixou de ser apenas institucional e ganhou peso humano, foi nas falas das protetoras que vivem o problema no cotidiano.
Presidente da Associação dos Animais de Colinas, Magna Regina Rodriguez afirmou que “não há romantismo em ser protetor”. O relato foi direto: falta estrutura, faltam recursos e sobra sofrimento. Segundo ela, resgatar animais doentes, feridos ou abandonados exige gastos altos com medicamentos, atendimento e recuperação, quase sempre bancados por quem acolhe.
A protetora Carla Cominete também fez um dos relatos mais fortes da noite. Ela afirmou manter cerca de 200 animais sob sua proteção, a maioria gatos, sem ajuda fixa para ração ou custeio veterinário. A fala escancarou aquilo que, até aqui, muitos já sabiam, mas o poder público nem sempre enfrentava com clareza: boa parte do peso da causa animal em Colinas está sendo carregada por cidadãos comuns, e não por uma estrutura pública organizada.
Representando o prefeito Kasarin, o secretário Abimael Rodrigues afirmou que participou da audiência “em missão” para contribuir com a busca de soluções. Defendeu que o enfrentamento do problema depende de esforço coletivo e sinalizou disposição para o diálogo.
Pela Secretaria Municipal de Saúde, a subsecretária Ludmila Caroline reafirmou o compromisso da pasta dentro de suas atribuições legais, citou o núcleo de controle de zoonoses e afirmou que a gestão está aberta a sugestões e estratégias possíveis para o município.
O problema é que, na prática, a cobrança já ultrapassou o discurso da boa intenção. A audiência mostrou que a população, os protetores e os próprios parlamentares esperam mais do que abertura para ouvir. Esperam ação, estrutura e continuidade.
Um dos trechos mais sensíveis da audiência foi a exposição da fragilidade da estrutura local para lidar com a situação. Em sua fala, o agente de endemias Micael afirmou que Colinas está há quase dez anos sem canil e observou que o espaço hoje ligado ao controle de zoonoses funciona, na prática, quase apenas na parte administrativa.
A declaração reforçou a percepção de que o município está atrasado diante de um problema que cresceu nas ruas e se agravou sem que a estrutura pública acompanhasse esse avanço.
Também durante a audiência, a vereadora Daane Mota destacou que o requerimento foi aprovado com apoio dos 13 vereadores, sinalizando que a Câmara reconhece a gravidade da pauta e a necessidade de buscar soluções.
A audiência também serviu para mostrar que Colinas não precisa começar do zero nem inventar saídas mirabolantes.
O vereador Diego da APA, de Araguaína, defendeu que a causa animal pode ser enfrentada com medidas já conhecidas: castração em escala, canal de denúncias, fiscalização, estrutura administrativa e aplicação da legislação. Já a vereadora Mary Cats, de Palmas, apresentou ações implementadas na capital, como castramóvel, centro cirúrgico para castrações, vacinação, microchipagem, vermifugação e programa de doação de ração.
As experiências citadas deram um recado claro: há caminhos possíveis. O que falta, em muitos casos, não é modelo. É decisão.
Ao fim do encontro, o diagnóstico ficou evidente. Colinas convive com um problema antigo, crescente e mal resolvido. A audiência pública teve mérito ao tirar a causa animal da invisibilidade, reunir diferentes vozes e formalizar a cobrança por políticas permanentes.
Mas a própria noite também deixou outra verdade à mostra: a cidade já passou da fase do improviso. O que hoje se cobra é estrutura, planejamento, castração contínua, apoio aos protetores, educação, fiscalização e responsabilidade compartilhada entre poder público e sociedade.
A audiência abriu a porta. Agora, o que se espera é que ela não termine arquivada no silêncio burocrático. Porque, enquanto a solução não chega, os animais continuam nas ruas e o peso continua caindo sobre os mesmos ombros.
Confira a íntegra da audiência pública