Evento com vereadores vira arena de confronto entre Wanderlei, Amélio e Vicentinho

Discursos no encontro desta quinta-feira, 26, expuseram o rompimento entre o governador e o presidente da Assembleia, além de acirrar o embate com o deputado federal Vicentinho Júnior na corrida pelo Palácio Araguaia.

Por
6 Min

O 2º Encontro de Vereadores e Servidores das Câmaras Municipais do Tocantins, realizado nesta quinta-feira, 26, deixou de ser apenas uma agenda institucional e se transformou num palco de confronto aberto entre os principais nomes da pré-disputa ao Palácio Araguaia. O evento expôs, sem maquiagem, a ruptura entre o governador Wanderlei Barbosa (Republicanos) e o presidente da Assembleia Legislativa, Amélio Cayres (Republicanos), além de acirrar o embate com o deputado federal Vicentinho Júnior (PSDB), também pré-candidato ao governo.

A temperatura política subiu depois que Amélio e Vicentinho fizeram discursos em que mantiveram suas pré-candidaturas, defenderam o debate eleitoral e, ao mesmo tempo, buscaram preservar o tom de respeito pessoal em relação ao governador. Wanderlei, porém, reagiu em público, endureceu o discurso e respondeu de forma direta às falas que o antecederam, num gesto lido no meio político como a consolidação de um rompimento que já vinha sendo desenhado nos bastidores.

Amélio foi um dos primeiros a deixar clara a disposição de seguir adiante na disputa pelo comando do Estado. Ao se referir à possibilidade de candidatura, afastou qualquer tom de dúvida. Disse que não se trata mais de uma hipótese, mas de uma decisão tomada. Mesmo assim, fez questão de afirmar que a divergência política não romperá sua amizade com Wanderlei Barbosa e com a família do governador.

No mesmo discurso, o presidente da Assembleia anunciou que irá arquivar, na próxima terça-feira, os quatro pedidos de impeachment que ainda tramitam contra o chefe do Executivo estadual. Ao justificar a medida, Amélio afirmou que o impedimento “nem deveria ter aparecido” e sustentou que não havia fundamento suficiente para uma medida dessa gravidade. Disse ainda que o Estado não podia mergulhar em mais uma crise institucional e que já era hora de “virar essa página”.

Amélio também procurou afastar qualquer cobrança pública ao governador. Disse que Wanderlei não lhe deve apoio político, que respeita a decisão dele de caminhar com a senadora Dorinha Seabra (União Brasil) e chegou a elogiar a parlamentar, chamando-a de “grande mulher”. Ainda assim, reafirmou que sua candidatura está mantida e será levada adiante.

A resposta de Wanderlei veio em tom muito mais áspero. Em vez de acolher o gesto de Amélio em torno do arquivamento dos pedidos de impeachment, o governador devolveu com um desafio. Disse que, ao contrário, gostaria que a Assembleia abrisse uma CPI para investigar a venda de cestas básicas e os fatos do passado. Foi uma fala que desmontou qualquer tentativa de distensão e expôs a profundidade da fissura entre os dois.

Na sequência, Wanderlei elevou ainda mais o nível do confronto ao afirmar que a indicação do então secretário da Assistência Social, José Messias, teria partido do deputado estadual Toinho Andrade (PSDB), hoje rompido com o Palácio. E arrematou com uma frase de forte repercussão política: “Pode fazer a CPI, porque no dia em que a Polícia Federal entrou na minha casa, entrou na de vocês também.”

A reação do governador foi interpretada como um recado direto a Amélio e ao grupo político que gravita em torno da Assembleia. Se ainda existia alguma margem para recomposição, o discurso desta quinta-feira reduziu esse espaço. O gesto de Amélio ao anunciar o arquivamento dos pedidos de impeachment, que poderia soar como tentativa de pacificação, acabou recebendo do governador uma resposta de confronto.

Vicentinho Júnior também entrou no centro da cena. Em seu discurso, o deputado federal procurou marcar posição como adversário de Wanderlei na sucessão estadual, mas sem descambar para ataques pessoais. Disse que haverá “grandes embates” e “grandes debates” durante a campanha, porém ressaltou que não deseja ao governador cassação, prisão nem sofrimento. Num dos trechos mais comentados, afirmou que não apagaria os “choros colocados em quartos juntos”, numa referência à relação de proximidade que já tiveram.

Wanderlei rebateu esse ponto de forma direta e negou que tenha havido o episódio narrado por Vicentinho. O governador rejeitou a versão e deixou claro que não aceitava aquela reconstrução pública da relação entre os dois.

Além do recado a Wanderlei, Vicentinho também se dirigiu à senadora Dorinha Seabra, a quem chamou para um debate no campo das ideias. Disse que não pretende travar disputa de “massa muscular”, mas de “massa encefálica”, e pediu que a adversária também ajude a combater mentiras e distorções durante o processo eleitoral. Ao final, afirmou que não pretende desconstruí-la politicamente, porque, se ela vencer, será sua governadora; e, se ele vencer, ela seguirá sendo senadora do Estado.

O que chamou atenção, no entanto, foi justamente o contraste entre o conteúdo dos discursos de Amélio e Vicentinho e a reação de Wanderlei. Pelo teor das falas, ambos optaram por um tom cauteloso, com referências à amizade, ao respeito e à necessidade de um debate político civilizado. Não houve, objetivamente, um ataque frontal que, isoladamente, explicasse a explosão do governador no palco.

É nesse ponto que os bastidores ganham peso. A leitura que circula entre atores da política estadual é a de que o episódio desta quinta-feira não nasceu apenas do que foi dito no evento, mas do acúmulo de tensões anteriores. Entre elas, a permanência dos pedidos de impeachment na Assembleia por tanto tempo, vista por setores do governo como um instrumento de pressão política velada. A fala de Amélio anunciando o arquivamento pode ter tocado justamente nessa ferida.

No fim, o encontro serviu menos para aproximar e mais para separar. Wanderlei reafirmou seu alinhamento com Dorinha, Amélio confirmou que não vai recuar da candidatura e Vicentinho se colocou de vez como adversário no tabuleiro. O que estava nos corredores foi parar no microfone. E, na política, quando o dissenso deixa o bastidor e ganha o palco, a crise já não é mais rumor. É fato consumado.


Notícias Relacionadas »
Comentários »
Comentar

*Ao utilizar o sistema de comentários você está de acordo com a POLÍTICA DE PRIVACIDADE do site https://correiodotocantins.com.br/.
event.preventDefault(); }); document.body.oncontextmenu = function(e){ if(window.event) { return (event.returnValue = false) } else { e.preventDefault() } }; window.onmousedown = function(){ if(window.event){ if(event.button == 2 || event.button == 3){ return (event.returnValue = false) } } } } } bloqtx.init();