A influenciadora digital Lara Luiza Cabral Dias é apontada pela Polícia Civil do Tocantins como uma das principais investigadas na primeira etapa da Operação Tigre de Areia, deflagrada em Palmas para combater um suposto esquema de exploração de jogos de azar, promoção de loterias não autorizadas e lavagem de dinheiro. Segundo a investigação, o grupo teria movimentado mais de R$ 20 milhões em apenas um ano.
Com quase 19 mil seguidores no Instagram, Lara usava as redes sociais para publicar mensagens de fé, conselhos, registros de viagens, sorteios e divulgação de plataformas de apostas. De acordo com a decisão judicial que autorizou as medidas da operação, os perfis nas redes sociais eram considerados peças centrais para a promoção das atividades investigadas.
Durante a ação, a Polícia Civil apreendeu três veículos e obteve o bloqueio de três casas e sete lotes. A Justiça também determinou a suspensão de perfis nas redes sociais supostamente utilizados para divulgar apostas e sorteios ilegais. O juiz Milton Lamenha de Siqueira, responsável pela decisão, considerou as plataformas digitais como o “coração” da prática criminosa.
As investigações são conduzidas pela 1ª Divisão Especializada de Repressão ao Crime Organizado, a 1ª Deic de Palmas, sob responsabilidade do delegado Wanderson Chaves de Queiroz. Segundo a Secretaria da Segurança Pública, a estrutura investigada era organizada para exploração de loterias não autorizadas, jogos ilegais e lavagem de dinheiro.
A investigação aponta que o suposto esquema tinha participação de familiares da influenciadora. A mãe de Lara, Valquira Cabral de Sousa, também foi alvo de busca e apreensão. Embora tenha declarado ocupação de faxineira e renda mensal de R$ 3 mil, ela teria movimentado cerca de R$ 9 milhões no período investigado.
Para a Polícia Civil, as contas da mãe da influenciadora podem ter sido usadas como “contas de passagem”, uma forma de circular valores e dificultar o rastreamento da origem do dinheiro. Lara, por sua vez, teria declarado renda inferior a R$ 4 mil mensais, valor considerado incompatível com o padrão de vida ostentado nas redes sociais.
Segundo a decisão judicial, o grupo utilizava o método conhecido como “smurfing”, que consiste no fracionamento de grandes quantias em pequenas transferências para evitar alertas de órgãos de controle financeiro. A apuração também indica que os investigados compartilhavam aparelhos eletrônicos para realizar movimentações bancárias e distribuíam valores por meio de bancos digitais e fintechs.
Além da influenciadora e da mãe, a irmã de Lara também aparece nas investigações. Ela mantinha perfil com cerca de 3,8 mil seguidores e publicava momentos de lazer, além de aparecer uniformizada em registros relacionados à Cabral Construtora, empresa inaugurada por Lara em janeiro de 2025.
Um dos pontos apurados pela Polícia Civil é o possível uso de empresas ligadas ao grupo para ocultar patrimônio e dissimular a origem de recursos ilícitos. A Cabral Construtora, que leva o sobrenome da influenciadora, também teve perfil bloqueado por determinação judicial.
Para a Justiça, empresas vinculadas aos investigados poderiam funcionar como instrumentos para dar aparência legal ao dinheiro movimentado. A polícia ainda apura se essas estruturas eram usadas como empresas de fachada.
Outro ponto sensível da investigação envolve transferências para instituições religiosas. Segundo o delegado Wanderson Chaves de Queiroz, ainda será apurado se os valores repassados eram dízimos e ofertas reais ou se faziam parte de um mecanismo de lavagem de dinheiro.
“O dinheiro do crime entra como doação de oferta ou de dízimos e sai um dinheiro limpo como da entidade religiosa. Um pastor, por exemplo, com esse dinheiro poderia comprar imóveis para a igreja, carros, fazer investimentos e outros negócios para beneficiar a pessoa que inicialmente injetou o dinheiro ilícito”, explicou o delegado.
A Polícia Civil informou que vai aprofundar a investigação para verificar se alguma instituição beneficiou pessoas ligadas ao grupo. “Há transferência de valores para uma igreja. Nós vamos aprofundar as investigações para saber se a instituição beneficiou pessoas do grupo de alguma forma”, afirmou Queiroz.
O contador Thiago Schüler explicou que igrejas podem ser visadas por organizações criminosas em razão da imunidade tributária. Segundo ele, como as instituições religiosas não precisam identificar nominalmente todas as doações feitas em dinheiro, esse tipo de estrutura pode ser explorado para esconder a origem dos recursos.
“A origem não é identificável e nem se paga imposto sobre as doações. É onde o crime tenta entrar para não ser percebido”, afirmou.
O especialista ressaltou, porém, que o simples recebimento de doações não configura crime. Para que haja lavagem de dinheiro, é necessário que o recurso retorne, direta ou indiretamente, ao grupo criminoso.
“A lavagem tem que ir e voltar. A igreja teria que aplicar o recurso em algo do interesse do doador, como a compra de um imóvel ou investimentos para beneficiar o grupo”, detalhou Schüler.
Segundo ele, o foco da investigação deve estar na saída dos recursos. Embora a entrada do dinheiro possa ser difícil de rastrear, a aplicação do capital exige documentos, contratos e registros contábeis.
Apesar da gravidade das suspeitas, a Justiça negou o pedido de prisão preventiva das investigadas. Em vez disso, foram determinadas medidas cautelares, como a suspensão das redes sociais, sequestro de bens, bloqueio de patrimônio e quebra de sigilo de dados.
Com a autorização judicial, os investigadores poderão acessar informações armazenadas em celulares, computadores e serviços de nuvem. A expectativa da Polícia Civil é que o material apreendido ajude a esclarecer a origem e o destino dos valores movimentados.
Mãe e filha são investigadas pelos crimes de exploração de jogos de azar, promoção de loterias ilegais, associação criminosa e lavagem de dinheiro.
A equipe de Lara Luiza Cabral foi procurada para comentar as investigações, mas não houve retorno até a última atualização das informações. Também não houve contato com a mãe da investigada.