A internet se consolidou como o principal espaço de debate público no Brasil. É nela que opiniões se formam, narrativas ganham força e conflitos se amplificam. No entanto, por trás do barulho constante, há um dado que ajuda a explicar a fragilidade de muitas discussões: uma parcela significativa da população brasileira não compreende plenamente aquilo que lê.
O problema não é novo, mas permanece atual e pouco enfrentado.
O analfabetismo funcional não se confunde com a incapacidade de ler e escrever. Ele atinge pessoas que decodificam palavras, mas têm dificuldade para interpretar textos, compreender argumentos, estabelecer relações entre informações e usar a leitura e a matemática de forma prática no dia a dia.
No Brasil, cerca de 7% da população adulta ainda é analfabeta no sentido clássico. Porém, o quadro mais amplo é mais preocupante: quase 30% dos brasileiros entre 15 e 64 anos são considerados analfabetos funcionais, segundo levantamentos nacionais recentes. Trata-se de um contingente expressivo, que atravessa gerações e regiões.
Um dos aspectos mais sensíveis do problema é o fato de que a escolaridade formal, por si só, não assegura a proficiência em leitura. Pesquisas mostram que parte significativa das pessoas que concluíram o ensino médio e até o ensino superior, apresenta limitações relevantes de compreensão textual.
Isso indica que o desafio não está apenas no acesso à escola, mas na qualidade do processo formativo. Ao longo de décadas, o sistema educacional avançou em matrícula e permanência, mas teve dificuldades em formar leitores críticos, capazes de interpretar, questionar e contextualizar informações.
Esse cenário se reflete diretamente no ambiente digital. As redes sociais privilegiam velocidade, frases curtas e reações imediatas. Em um país onde milhões de pessoas têm dificuldade real de interpretação, o resultado é um debate público marcado por ruído, mal-entendidos e conflitos baseados em leituras superficiais.
Não são raras as discussões que se originam de títulos lidos isoladamente ou de trechos descontextualizados. Opiniões são formadas antes da compreensão do conteúdo, e a discordância muitas vezes se baseia mais em projeções do que no texto original.
Indicadores educacionais nacionais e internacionais apontam que o desempenho brasileiro em leitura permanece abaixo da média de países desenvolvidos. Uma parcela considerável dos estudantes não consegue identificar ideias centrais, interpretar informações implícitas ou estabelecer relações entre textos.
Esse déficit não desaparece com o tempo. Ele acompanha o cidadão na vida adulta e influencia a forma como consome informação, participa do debate público e toma decisões.
Os dados sobre analfabetismo funcional não devem ser usados como instrumento de desqualificação ou ironia. Não se trata de um problema individual, mas estrutural, resultado de desigualdades históricas e falhas persistentes no sistema educacional.
Compreender essa realidade é essencial para explicar por que a desinformação encontra terreno fértil, por que debates se tornam rasos e por que a polarização cresce mesmo diante de fatos objetivos.
Não há solução simples ou imediata. O enfrentamento do analfabetismo funcional passa por alfabetização sólida na infância, estímulo permanente à leitura, educação de jovens e adultos tratada com seriedade e uma comunicação pública mais clara e responsável.
Também exige do jornalismo o compromisso de explicar sem simplificar em excesso, informar sem excluir e contextualizar sem perder clareza.
A internet não vai desacelerar, nem os algoritmos vão favorecer a reflexão. Cabe ao leitor, portanto, o gesto básico e cada vez mais necessário: ler com atenção antes de comentar, compartilhar ou atacar.
No fim, permanece uma constatação incômoda, mas fundamental para o debate público: o problema não é discordar. É não compreender o que está sendo dito.
Fontes:
IBGE (Censo Demográfico 2022); Indicador de Alfabetismo Funcional – INAF (Relatório 2024); OCDE (PISA 2022); Ministério da Educação.
Thiago de Castro
Jornalista DRT-1128/TO
Editor – Jornal Correio do Tocantins