No coração do Tocantins, onde o asfalto cede à poeira e ao descaso, o povo de Peixe resolveu pegar em pás, enxadas e coragem. A cena, que deveria comover qualquer gestor público, foi encarada com hostilidade. Após vídeos viralizarem mostrando moradores e comerciantes tapando buracos nas ruas da cidade, o prefeito reeleito Augusto César, o Cezinha (MDB), decidiu reagir não com obras, mas com um boletim de ocorrência contra o empresário Jhoani Menegon, que coordenou parte da ação.
A iniciativa popular, nascida da frustração com a omissão da prefeitura, mobilizou dezenas de pessoas. Em vez de esperar por promessas vazias, homens e mulheres foram às ruas com carrinhos de mão e sacos de cascalho, cobrindo os buracos que ferem a dignidade urbana da cidade.
"Nada. A cidade está esquecida. Se a gente não faz, ninguém faz", lamentou um comerciante, temendo represálias.
A resposta da prefeitura foi um ato simbólico de repressão: Cezinha, acompanhado do assessor jurídico e do secretário de Obras, compareceu à Delegacia Civil para registrar uma queixa contra o empresário e o motorista da caçamba contratada para ajudar no serviço. A acusação? Intervenção indevida em serviço público. A população viu o gesto como tentativa de intimidação — e reagiu.
“Prefeito, você não intimida nem a mim, nem a todos os companheiros que estão aqui. Isso aqui é uma ação conjunta de quem cansou de esperar pela prefeitura”, rebateu Jhoani em vídeo amplamente compartilhado.
A cidade, com 3.914 votos destinados ao atual gestor na última eleição — 64,33% dos votos válidos —, agora se vê rachada entre a esperança eleitoral e a realidade crua do asfalto esburacado. A abstenção de quase 16% e os votos nulos também já anunciavam um desencanto latente, que agora toma forma concreta em mutirões de cidadania.
Moradores relatam prejuízos com veículos, acidentes — como o de uma mulher que fraturou a perna em dois lugares após cair em uma cratera — e ameaçam recorrer à Justiça contra o município.
“Estamos fazendo o que deveria ser feito com os nossos impostos”, disse um morador.
Se a intenção da prefeitura era conter o movimento, o efeito foi o oposto. A tentativa de criminalizar quem tapa buraco virou combustível para novos vídeos, novos depoimentos, novas ações.
“Não vamos recuar. Se for preciso, cada um aqui testemunha, grava e continua fazendo”, garantiu outro morador.
O caso de Peixe ressoa como alerta para tantas outras cidades do interior brasileiro, onde a reeleição muitas vezes se transforma em carta branca para o abandono. Mas em Peixe, a população decidiu que não vai mais andar na ponta dos pés sobre o cascalho da negligência. E, pelo que tudo indica, o barulho das pás ainda vai ecoar por um bom tempo.