19/05/2026 às 22h03min - Atualizada em 19/05/2026 às 22h03min

Palanques invertidos e cargos em jogo: o xadrez antecipado da eleição no Tocantins

Pré-candidatura de Dorinha Seabra aproxima Palácio Araguaia de antigos adversários municipais, enquanto exonerações e nomeações expõem o rearranjo político em torno da disputa de 2026

Thiago de Castro

Thiago de Castro

Colunista e Editor do Jornal Correio do Tocantins

A política tocantinense raramente espera o calendário eleitoral para começar a se movimentar. Antes dos discursos oficiais, das convenções partidárias e do corpo a corpo das campanhas, há sempre um jogo silencioso acontecendo nos bastidores. E, neste momento, esse jogo passa por nomeações, exonerações, recomposição de alianças e uma curiosa inversão de palanques entre antigos adversários.

A pré-candidatura da senadora Dorinha Seabra ao Governo do Tocantins tem funcionado como ponto de convergência entre o Palácio Araguaia e prefeitos que, em 2024, estiveram do outro lado da trincheira municipal. O governador Wanderlei Barbosa, que apoiou determinados candidatos nas eleições passadas, agora vê parte desses antigos aliados caminhar para a oposição, enquanto gestores que enfrentaram o grupo palaciano se aproximam da base governista.

É o caso de cidades politicamente estratégicas como Palmas, Araguaína, Porto Nacional e Paraíso do Tocantins. Em cada uma delas, a eleição municipal deixou feridas, ressentimentos e mapas de força. Mas a disputa estadual de 2026 parece estar redesenhando essas linhas com outra tinta. Na política, convicções partidárias muitas vezes cedem lugar à conveniência eleitoral, e o Tocantins conhece bem essa gramática.

Nesse ambiente, a senadora Dorinha aparece como o nome capaz de reunir personagens que, há pouco tempo, estavam em palanques opostos. O apoio de prefeitos que não caminharam com Wanderlei em 2024 mostra que o projeto governista busca ser maior do que as disputas municipais recentes. A lógica é simples: a eleição estadual exige musculatura territorial, tempo de construção e capilaridade nos maiores colégios eleitorais.

Mas essa recomposição também produz custos. Quando um grupo se reorganiza, alguém fica para trás. E os atos publicados no Diário Oficial nº 7.061, desta segunda-feira, 18 de maio, ajudam a revelar que o governo também começou a fazer sua triagem política.

Entre os nomes exonerados está Rafael Costa Bento, irmão do prefeito de Filadélfia, Davi Bento. O prefeito, embora filiado ao Progressistas, partido que integra a base estadual e apoia o projeto de Dorinha, declarou apoio ao deputado federal Vicentinho Júnior, hoje pré-candidato de oposição ao Palácio Araguaia. A exoneração de Rafael, nesse contexto, foi interpretada nos bastidores como um recado político.

Outro caso é o de Marco Augusto Costa Cayres Almeida, que ocupava cargo na Secretaria Executiva da Governadoria. Ele é ligado à família Cayres e sobrinho-neto do presidente da Assembleia Legislativa, Amélio Cayres, apontado como pré-candidato a vice-governador na chapa de Vicentinho Júnior. Sua saída também ocorre em meio ao afastamento político entre o grupo palaciano e setores que passaram a se alinhar ao projeto oposicionista.

Esses movimentos não são fatos isolados. Eles compõem um quadro mais amplo: o governo Wanderlei começa a separar aliados de ocasião de aliados de projeto. Em ano pré-eleitoral, cargos públicos passam a ter peso simbólico e funcional. Não servem apenas à administração; tornam-se também instrumentos de sinalização política.

Do outro lado, a nomeação do suplente de deputado federal Júlio Oliveira para a direção administrativa e financeira do Hospital Regional de Augustinópolis reforça essa leitura. Ex-prefeito de Augustinópolis e figura tradicional da política no Bico do Papagaio, Júlio deixou cargo na Assembleia Legislativa e foi acolhido na estrutura do governo estadual.

A movimentação é vista como mais do que uma simples mudança administrativa. No tabuleiro político, ela representa a aproximação de Júlio com o grupo de Wanderlei e Dorinha, além de seu distanciamento do campo liderado por Vicentinho Júnior e Amélio Cayres. O gesto tem peso regional, especialmente porque Augustinópolis e o Bico do Papagaio são áreas sensíveis na disputa estadual.

A política, nesse caso, fala por meio dos atos oficiais. Uma exoneração pode indicar rompimento. Uma nomeação pode anunciar adesão. Um cargo pode valer menos pela função técnica e mais pelo endereço político que revela.

O que se desenha, portanto, é uma disputa antecipada entre dois polos. De um lado, o grupo governista tenta consolidar Dorinha como candidata natural da base, unindo o Palácio Araguaia, prefeitos de grandes cidades e lideranças regionais. De outro, Vicentinho Júnior busca construir uma frente de oposição com apoio de nomes como Amélio Cayres e aliados que se afastaram do governo.

A contradição mais evidente está no fato de que a eleição de 2024 ainda ecoa dentro da eleição de 2026. Prefeitos que foram adversários do governador agora podem ser aliados. Candidatos apoiados pelo Palácio no ano passado hoje podem estar na oposição. Nada disso surpreende quem conhece a política tocantinense. O poder, por aqui, costuma andar por estradas de chão batido: muda de direção conforme o terreno.

Ainda é cedo para saber qual grupo chegará mais forte ao período eleitoral. Mas já é possível afirmar que a pré-campanha deixou o campo das conversas reservadas e passou a aparecer em documentos oficiais, exonerações, nomeações e eventos públicos.

No Tocantins, a disputa pelo Palácio Araguaia não começou com comício, nem com programa de governo. Começou do modo mais tradicional da política: pela ocupação dos espaços, pela contagem dos aliados e pela leitura cuidadosa de quem entra e de quem sai.

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